
O cabelo escorria-lhe pelas costas, os fios castanhos quase encaracolados ofuscavam a luz amarela, que fraquinha iluminava o chão o quarto. O corpo permanecia imóvel, os olhos pregados. Sentia o sangue correndo-lhe nas veias.Então, o riso veio pintar-lhe a face. Pôs-se a conter a lágrima, mas ela sempre soube que esse era um trabalho involuntário do corpo.Os dedos contornavam os lábios superiores, enquanto os dentes superiores, marcavam os inferiores. Essa troca de inferiores, a fez lembrar da mistura de vozes, e os olhares sentidos. De súbito, queria levantar-se dali, e correr contra o tempo. Quem sabe ainda não poderia reviver tudo outra vez? Lá fora a chuva caía dolorosamente. Era quase possível sentir as gotículas tocar-lhe a pele. Mas, ela não sentia mais nada, além do gosto que ficara em todo o corpo. Porque tudo parecia ter sido ensaiado.Ou será improvisado? Ela havia esquecido as falas, mas também pudera, com um belo par de olhos debruçados sobre os seus. E então ambos se fecharam.Quanto tempo ficaram, assim? Gostaria de poder ter cronometrado, ou poderia ter pausado? Não, quis deixar correr. Não sabe de onde, e nem porque, sentiu batidas frenéticas de asinhas, coloridas, e rapidamente, dentro do próprio estômago. Seriam as tais borboletas? E então, desencadeou uma pulsação desconhecida dentro do corpo. O coração parecia estar correndo em direção a boca. E agora? Sairia correndo, é claro.Ah, tola! As pernas ameaçaram sair do lugar, o máximo que fizeram foram mudar de posição. E quando se deu conta, estava mais do que próxima.E as mãos por onde andavam? Surpreendeu-se ao vê-las dançando descompassadamente pelos outros cinco dedos gélidos que as envolviam, em uma canção desconhecida. Mas boa, muito boa por sinal. Arriscou abrir os olhos,tarde demais. Os lábios colavam-se, uns contra os outros. Parecia eterno, seria? O mundo girou maravilhosamente, mais do que devagar. Não havia parado? Será possível? Ah, então deveria ter pausado aí. Neste exato momento.Esqueceu-se. Não sabia o que havia lhe passado. Quanto tempo permaneceu. Com os olhos ainda fixados nos mesmos lábios, que murmuram um "boa-noite". Boa? Noite? Ah, é claro. Estava durante a noite. Bateu a porta com delicadeza. O som do carro, completou a noite. Os passos para o quarto, o chão parecia estar enfeitado de nuvens. E as estrelas salpicavam o céu, um belo céu azul. Azul ou preto? Talvez azul-marinho. A mesma cor dos sapatos.Mas a noite era ótima, não boa. Afinal, não se precisaria desejar-lhe "boa-noite" durante muitos dias.
Ela revivia o momento, novamente. Enésima vez? Parecia que ainda estava na primeira. Perdeu a conta. O corpo estava na mesma posição. Fechou os olhos, mas nem percebera.Os pensamentos a embriagavam, não mais do que o perfume que a acompanhou por quase uma noite toda. Com os sapatos enfeitando-lhe os pés, deixou-se vencer pelo sono.Sonhos? Mas não estaria ela sonhando esse tempo todo?