sexta-feira, agosto 19, 2011

Os fatos, você e a bobalhona antiquada.

Porque é tão difícil seguir meus próprios conselhos?
Era um dia aparentemente normal. Acordei com o mesmo pensamento, o mesmo sorriso a estampar vez ou outra ao me pegar relembrando dos teus olhos, e da nossa sincronia a medida que caminhamos. Era um dia normal. Apesar da minha intuição sussurrar baixinho, que algumas coisas não estavam legais, resolvi não encafifar. Mesmo sabendo que eu sou daquelas, que quando encafifa não consegue pensar outra coisa, dizer outra coisa, chorar outra coisa, lamentar outra coisa. Querer resolver tudo logo. Se livrar do nó na garganta. Berrar pra Deus e o mundo, que não quer mais saber disso. Apesar de gritar, qualquer baboseira, continuei a sorrir ao cambalear até o banheiro, e pedir aos segundos que passassem logo, que o dia acabasse logo, e clamar pelo fim de semana. Afinal, você estava errado, não passam rápido. Nenhum tempo com a tua ausência é rápido. De qualquer forma, segui aos meus afazeres, imaginando você segurando minha mão. Sonhando que você estaria me esperando lá fora. Criando falas suas pra me fazer sorrir. É, pode dizer que sou uma desvairada. Antiquada, e bobalhona. Eu sou. E nasci sabendo que não estava na época certa. Que as pessoas daqui não são como eu, ou para soar melhor, eu não sou como elas. Eu não quero me apresentar, eu não quero glória, eu não quero idiotice, eu não quero folia, eu não quero bagunça, ou gritaria. Diversões e alegrias pra mim, é muito além dessas coisas que costumam ser feitas, e acabam por me causar enojamento. Reviro os olhos com desaprovação. E eu acreditava que você pensava de maneira semelhante, não igualitária. Somente semelhante. 
Segui aos meus compromissos, e então senti uma felicidade que vinha não sei de onde. Estranhei. Dei de ombros, e continuei a cantar no meu último volume. Afinal, apesar das coisas não estarem do jeito que queria que estivesse, eu tinha você, minha melhor música, e o fim de semana chegando. Fechei os olhos com força, e me esqueci de tudo que me consumia. Os meus minutos estavam contadíssimos, e sem aproximação. Exatos. E então, aquelas palavras de modo tão sem propósito algum, me contaram seus atos. E você agia como se eu não te conhecesse. Como se você fosse outro. E eu estivesse diante de um ser tão estranho que me causava náuseas, medo, e coisas do tipo. Tremi. Raiva. Insegurança. Eu sou a bobalhona, lembra? E idiota. Sem problemas. Eu sou mesmo, sou a que se cala, e não sabe o que fazer. Chorei. Isso não é novidade. Talvez você tenha percebido pelo meu tom ao telefone. Talvez tenha imaginado o modo como apertava-o com força contra meu rosto molhado. Talvez tenha me visto com os olhos cerrados, enquanto me afogava entre um soluço e outro. Minha voz falhou. Você fez aquela pausa, sua. O ar de desentendido. E não imagina como é cortante escrever isso. Me pergunto, o porquê de ainda me trancafiar em palavras se isso não alivia-me em nada. Eu também não sei qual seria a resposta certa, talvez porque as palavras são as únicas que conseguem me ouvir, ainda. Aquelas que sempre estarão aqui, sempre que eu precisar. De algum modo, isso seria tudo, ou quase tudo que de diria se você estivesse agora por perto. 
Diante dos fatos, eu descobri tanta coisa, mais tanta. Coisas que eu gostaria de não saber, de que não existissem. Talvez, diante dos fatos, você perceba que eu sou mais do que ciumenta e dramática. Mas meu caro, eu sou só assim diante dos fatos. Quando as evidencias são claras demais. Eu tenho visto um lado seu, que não me fez nada bem. Me surpreende estar escrevendo sobre isso. Não sei como consegui comer, ou dormir. Noite passada, sonhei com desavenças nossas. Dito e feito. Agora eu estou aqui, chorando palavras, e você aí não sei onde. Talvez tenha se esquecido do acontecido, também pudera, tenho me lembrado por nós dois. Nós dois. Nós dois. Dois. E qualquer que seja o que se passa aqui dentro, eu espero que passe logo. Que suma logo, que me deixe a sós, com você. E que você melhore, que eu melhore, que nós dois melhoramos. Que eu pare de chorar de vez. Porque já não aguento, coração, cérebro, e cabeça doendo. 

  P.S: são somente fatos, então especulações sobre até que ponto pode ser verdadeiro ou fajuto, a parte.    

sexta-feira, julho 29, 2011

Não há título pra isso.


Já me disseram, não sei quando. E agora me lembro, ou uma voz me diz, o fato é não faz diferença alguma. Mas, dizem que quando se está no fundo do poço não há outro caminho de volta, exceto o que te levou até lá. Pois é, e  cá estou. A recolher migalhas de palavras, e restos de lágrimas escondidas sem um motivo aparente. A migrar por tanto sentimento. E  eu nem sei o porquê de me sentir assim. Aparentemente está tudo sob controle, normal, e bem. Negativo. Eu conheço minha intuição. Não erra. Talvez se errasse fosse melhor. Há dias que as coisas vem tropeçando, pisando sobre mim, e o causador. Eu venho sentindo muito, há muito tempo. Percebo que não acredita quando afirmo que já sei de tudo, e se isso fosse o problema. Será a saudade? Ou a minha TPM? Não sei. Esse amontoado de palavras está ficando mais perdido do que eu mesma. E já fazia tempo que as coisas, as mesmas, não apertavam a ponto de me fazerem recorrer à isso. Uma onda desses "dementadores" vagam livremente pela minha pobre mente. O medo apossa-se do meu ser. Intacta permaneço com minhas poucas palavras e meu celular sem créditos. A agonia ruminando em mim. A música a mil no fundo. Lembranças ótimas a tentar alegrar me. E a intuição gritando. A minha vontade de mudar as coisas se descabelando. O meu ser se enfraquecendo a cada segundo escorrido. Os mesmos olhares desaprovadores. A vontade de sumir se contrapõe. Objeção. E a minha filosofia de vida. A falta de esperanças. O amor sacudindo-se contra mim e meu coração. Ah, que ironia, meu coração. Os olhos nem se fuzilaram por algum tempo em silêncio. Admito, ocorreu. Mas não do jeito que deveria ser. O ócio me mata. Com ajuda da saudade que com mais força afinca os dedos ossudos, e as unhas compridas contra meu pescoço frágil. Os olhos cerram-se. Entre balbuciar teu nome, clamo a Deus, por um sono longo e pesado. Sem direitos a sonhos, e livre de pesadelos. Afinal, dormir é um modo interino de morrer, como diria Machado de Assis.

domingo, julho 17, 2011

Inacreditável.


E ele estava lá. Com aquele brilho que só os olhos dele tem. E o sorriso, que de algum modo a fazia sorrir também. Um riso diferente de todos os outros que ela tem. Um que só ele sabia como arrancar. Os passos vagarosos, quase parando. Inacreditável.As pessoas ao redor não significavam nada. Apenas parasitas impedindo a transição. Ele a esperava. Com a mesma ansiedade. Com o mesmo amor. Com a mesma saudade. E o que ele deveria fazer? Abraçá-lo? Um cumprimento casual? As luzes pareciam estar se apagando. O coração descompassado. Era tão longe. Apressou o passo. Sem sucesso. Ele sorriu, novamente. Girou a perna, impaciente. Foi ao encontro dela. Nesse momento o coração, pobrezinho, quase se partia contra o peito. E o que faria? Não sabia o que deveria fazer. E então ele chegou, tão próximo, que ela jurava ter visto o fundo dos olhos. Exagero, evidente. O som do coração já era imperceptível, fora ocupado pelo fonema das palavras, jorradas pelos lábios mais lindos do mundo, pensava ela. Era a primeira vez que o via, assim, em um momento tão oportuno. Digo, sem olhares humanos desaprovadores, sem holofotes, e coisas do tipo. Depois de quase mil semanas. É claro que isso faz parte da hipérbole amorosa. E então, ele estava ali. Ela não precisaria fazer nada. Ele faria tudo. Ele estava ali, meu Deus. Inacreditável. E então um pânico, ah é claro, o pânico. Será que acordaria a qualquer momento. Será? Sentiu o fervilhar invadir o corpo todo.  Tentou se beliscar, as mãos estavam ocupadas. Mas onde estariam as mãos? Uma voz sussurrou dentro dela mesma, "deixa isso pra lá". Os olhos estavam próximos, extremamente. As mãos? Ah, num movimento involuntário, encontravam-o. E bailavam em um abraço apertado. Seguro. Dele. Um abraço dele.Ah, quanto tempo sem. Ela achava que ainda lembrava. Que ainda o sentia durante suas noites mal dormidas, banhadas em lágrimas, afogada em suas limitações. Sim, ela o sentia, mas nada comparado ao perfume que o acompanhava em um abraço real. E ficaram assim, por inúmeros segundos, minutos.A saudade, desistira de perfurar-la. E sufoca-lo. Tirou férias. Pelo menos pelas próximas horas. É claro que ela voltaria assim que  dessem aquele último abraço, que sussurraria "até a próxima". Assim que ele, voltasse as costas, e desse um adeus lindo e doloroso. É claro que voltaria. E eles foram, juntos não sei pra onde. Tão sincronizados os passos, e os dedos dele a enroscar pelos cabelos dela. E os dela a se comprimirem aos outros cinco dele. E o riso dele nela estava mais vivo do que nunca, enquanto fazia o dele suspirar.

quinta-feira, junho 16, 2011

E se fosse com um pouco mais de cor?


Por mais que eu tenha meus preceitos, vivo em crise comigo mesmo, tentando me entender, acertar meus pontos, colocar tudo em ordem, e realmente obter uma conclusão compreensiva. Sim, tenho que admitir vivo em crise com meus pensamentos, minhas opiniões, minhas reações, minhas palavras. Pois é, eu acredito em tanta coisa que o mundo e a sociedade a muito tempo deixou de saber o verdadeiro significado. Não me culpo, e modéstia a parte, vez ou outra, correndo os olhos por todos esses traços que delineiam o meu cenário, sinto orgulho em ser dessa maneira. Que culpa poderia ter eu? Os anjos quiseram assim, o destino cheio de ironia me compôs assim, e eu me permiti. Me aceitei, me transformei. Mudei, aprendi a sobreviver. Cresci.
Sabe, eu acredito que ainda existem pessoas que são capazes de amar, e isso não é só porque, ando com meu coração meio acelerado. Acredito, que música deveria ser as lágrimas da nossa alma, e não um arranjado de letras sem significado, ou com significados nada agradáveis. Deveria ser algo mais puro, algo mais lógico, com sentido, seja ele denotativo ou conotativo, é eu acredito. Acredito que família deveria ser os personagens que compõem a cena de um domingo ensolarado, deveriam ser as pessoas que ocupam todas as cadeiras da mesa, e esperam uns pelos outros. Como diria John Lenon, eu também acreditava que as pessoas seriam salvas pelo amor. Engano o meu, o amor já se perdeu em pornografias e desejos, se embraçou em palavras vagas, e ofensas. As mulheres deixaram sua valorização em baixo da cama, ou trancaram em algum cofre sem chave.A sociedade critica tudo, e todos, enquanto todos pregamos contra o preconceito, uns são mais privilegiados que os outros. Não há livre arbítrio. Os sonhos se perdem em cada cena de violência. Eu realmente acredito em tanta coisa que já deixou de existir, ou que talvez nunca tenha existido. Talvez, seja por isso que nunca me encaixo em nenhum lugar. Deve ser por isso minhas crises. Eu tento salvar o mundo do meu jeito, do jeito que acho que deveria ser. É eu acredito que deve ser por isso que vivo em crise. O mundo não me aceita, e eu não o entendo. Eu só não queria aceitar que o mundo já acabou, e o pouco que nos resta, de nada me adianta. De nada me tem proveito. Só queria uma dose a mais de glitter, um pouco mais de cor, um sorriso mais sincero, um abraço mais apertado, um sonho não muito iludido, uma lágrima mais alegre, um pouco mais de contos de fadas. Se contos de fadas não existem, é porque nos mesmos não acreditamos, porque não nos permitimos. Eu sei que isso tudo pode ser melhor. Sim, se o mundo todo acreditasse, talvez realmente seria melhor. 

sexta-feira, maio 27, 2011

Pedido de devolução


Eu acho que estou com medo de ser feliz, porque sempre que eu fico muito feliz, acontece algo de ruim. 
 Charlie Brown
Querido ________,
como redigir tais palavras? Como te dizer qualquer coisa? Não há a necessidade de me informar que estas míseras e retóricas questões podem ser feitas a qualquer outro ser, exceto você. Iniciemos do princípio, vamos à apresentação. Sou eu. Eu sei, não sabes quem sou, e eu também não sei quem és. O fato que sei, é que te conheço, conheço muito bem, a ponto de meus sonhos te conhecerem também. Afinal, acredito que foram eles que me apresentaram à você. Em alguma noite dessas tantas, em que você se divertia com seus dedos tamborilando pelo seu violão, e o som penetrava meus tímpanos, enquanto eu rabiscava linhas mudas e sem sentido. Desde quando veio com seus pertences para o lar da frente, quando abro a janela do meu canto, a vista ficou mais bela. Talvez foi a cor dos teus olhos, ou o esverdeado da sua parede. Que importa? Ficou mais belo, mais perfeito. Combinou com a minha parede branca, e o castanho morto dos meus olhos. Ah, tenho delirado com teu perfume, e o com o roçar dos teus tênis vermelhos. Tenho me concentrado demais em você, tenho lembrado tanto de tu, em meio a devaneios insignificantes, perdi-me, esqueci-me de mim. Imagino agora, aquela sua expressão de pouca importância. Faça o teste: tire o cabelo da testa, e passe a mão por ela. Prazer, estas são suas ruguinhas de expressão, está perdendo a paciência, quase rasgando meus sentimentos e palavras, jogando tudo pro alto, ou pensando em amassar tudo, e jogar no lixinho do lado esquerdo da sua cama. Ah, Deus como queria estar errada, e que tudo fosse o contrário, porém deixe-me com meus desejos e minhas pretensões de lado. Vamos ao motivo que me trouxe remeter- te esta. Imploro-te que saia dos meus sonhos. Deixe-me em paz. Desde quando chegaste, não há uma vez em que piscara meus olhos sem você estar em meio aos meus pensamentos. A Terra já não faz mais sentido. Não há mais razão as horas, os dias. Meu ser pede e clama pelo teu. Sinto a necessidade do teu sorriso. Sinto a necessidade de ficar inúmeros segundos consecutivos te contemplando. Preciso da tua presença. Meu peito palpita aceleradamente em presença do teu ser. Seu caminhar me alucina. És como droga para mim. Necessito de ver-te todos os dias. Sua voz silenciosa me aquieta.  Preciso de ti. Ah, como já pediste aos céus que me livraste deste peso. Não sei o que seja isso, e nem porque escolheste a mim. Não seio o que é amor, ou paixão. Nunca me senti de tal modo. Ah, me sinto tão estranha, e algo como lágrimas vem brotar em meus olhos, quando penso que nunca terei-te. Por isso, meu caro, imploro-te que sumas de mim. Eu preciso voltar para meus livros, e minha vida trancafiada em meus preceitos. Preciso retomar-me. Preciso das cores da minha vida. Devolva o perfume do meu ser. Devolva meu coração, afinal não me deste o teu, e sinto minha pulsação se esvaindo a cada minuto que passa. Me devolva a mim. Volte para tua vida, e deixe com a minha. Assim, pararei de criar expectativas mortas sobre tua pessoa, e retomarei minha rotina.Com todo respeito do mundo, não me perturbe mais em meus sonhos, pare de me fazer suspirar. Afinal, nem sei como te chamam, não sei teu nome. De qualquer modo, acho que deves saber que o chamo em meus escritos de "amor". Deves ser meu amor, não sei o quanto essas três palavras podem significar, mas em minhas pesquisas  constatei que é o máximo de sentimento que pode ser grafado, então, eu amo você. 
P.S: Para a devolução, coloque tudo em baixo da minha janela. Pegarei o mais rápido possível. 
Com amor, 
Eu.

segunda-feira, maio 09, 2011

Minha vida, ou algo de mesmo significado irônico.


E então me agarro aos joelhos. Sinto a lágrima correr, e a tristeza corroer por dentro, e ela faz questão de o fazer, vagarosamente, o mais devagar possível. Então a saudade, inerte, me fita sentada ao meu lado. Com as duas mãos grudadas no meu pescoço. A música me embala, e eu não posso dançar. O medo a prender meus pés e mãos. O corpo imóvel, inerte de amor. Sem poder ter a liberdade de dá-lo por completo. Por não existirem palavras suficientes, por não existirem meios disponíveis, por haver fatores mais que limitantes.Mas ele existe, eu ainda existo. E eu vou indo. Ou melhor, ficando, desse mesmo modo. Sussurrando em pensamentos, gritando em lágrimas, clamando em palavras, e fingindo em sorrisos. Tantas perguntas pairam sobre mim, e flutuam pelo meu corpo e ser, quando é que as coisas vão retomar aos seus devidos lugares? Quando é que a vida realmente terá o seu verdadeiro significado? Afinal, até então tenho existido, e nada mais. Tenho imaginado, e me confortado com o que me tem dado forças para existir. É assim que tem sido meus dias. Obscuridade total, iluminado com sorrisos passados e verdadeiros, sonhos sem esperança, e fuja fracassada da minha realidade que perfura. Os pensamentos, são os mesmos e sempre serão. Os olhos na mesma direção, mesmo que também tenha um brilho fajuto, ainda tem a mesma intensidade. Tenho me perdido em devaneios, ou coisas do tipo. Tenho falado demais, ou me calado. Venho tentando sobreviver, do meu modo, sem ninguém perceber como meu ser está desfalecido. Meu coração estilhaçado, ainda que descompassadamente retoma as batidas, vez ou outra paralisado. Por minha sorte, e razão de sofrimento, tenho meu marca-passo natural. Tenho colírio para os olhos. E eu vou indo. Não sei até onde. E a pergunta que mais me afronta talvez seja: até onde é o meu limite?

terça-feira, maio 03, 2011

E o mundo ainda gira, na mesma velocidade.


Os joelhos tocavam o chão gélido, de modo que o frio cortava-lhe nos ossos. O belo par de olhos contemplava o cadáver estendido. Ele contemplava os olhos verdes esbugalhados com a mesma ternura, a face mergulhada em uma espécie de pó mortal, era a própria morte estampada, e por alguma razão ele ainda a admirava, e via a mesma beleza. Os dedos percorriam toda a face dela, e contornavam os lábios pintados de roxo, com tons avermelhados escarlate. Sentia uma sensação desconhecida. As forças se perderam em alguma parte. A voz sumira. Agarrou-se ao corpo, frio. As lágrimas banharam. A dor. O coração partia. Lentamente. Uma faca, entrando e saindo do peito, vagarosamente. A pior das dores. O ser desfalecia. O mundo não girava mais. Os olhos nada viam, agora. A escuridão Sentia como se tivesse com as mãos atadas. A multidão se formava ao redor. Ele queria expulsá-los dali. Queria ficar a sós. Sumir, agarrado ao corpo da amada. Por que ela não ficara? Por que não esperara mais alguns segundos? Ah, se ele não tivesse voltado o rosto para ela. Se ele não a tivesse beijado. Mas a rua estava deserta, não estava? Ele se sentia culpado.   Um ser, masculino, caminhou com as pernas entrelaçadas, cambaleando. Atônito. Proferiu palavras que não cabiam na situação. Dançou sobre os próprios pés. Agachou-se no chão. Olhou, sem entender o casal. Agora morto. Ele matara, mas não se culpava. Não se lembrava. Não sabia onde estava. Dormiu, impregnando o cheiro de álcool. Ela ainda usava o vestido branco, o mesmo da mãe. A face banhada em sangue e lágrimas, do amor de sua vida. E ele, ainda balbuciava, e repetia os votos. As lágrimas, corriam, sem direção. Desfalecendo, colou seu rosto ao dela. Beijou-a. Manchou os lábios de sangue. O penteado tinha alguns fios rebeldes. A multidão aos poucos se afastava, com a mão levada a boca. O mundo ainda girava, ao mesmo tempo que a dor mortal latejava.