quinta-feira, janeiro 19, 2012

Uma maratona


Ela não sabia para onde, e em que lugar levaria a estrada sem rumo, aparentemente. A escuridão aparentemente a sufocava, a respiração falhava. No entanto, a ânsia de ir a algum lugar, a encorajava a ir mesmo sem saber para onde. O relógio da vida, estava andando para trás, as pessoas retrocediam pausadamente para as origens, de onde não deveriam nunca terem saído. Ela caminhava na direção oposta, de olhos fechados, coração aberto, pulsação a mil, cabelos a misturar-se com a neblina. Sonhos a fazê-la tropeçar, por medo de pula-los. Medo de capa vermelha a sondava ao de som uma música assustadora. Ela tentava olhar as pessoas, e se perguntava porque não passavam de borrões, e porque insistiam em tomar a decisão errada. A vida não esperava. Ampulheta no topo, areia a espatifar-se no outro ângulo, sem piedade, sem tempo a perder, sem pressa à voltar. A vida se ia, a cada grão de areia que se movia naturalmente. Ela corria, com medo de não ter tempo suficiente. As pessoas não se importavam. Ofegante, sem visão alguma. Parou. Respirou fundo. Uma voz lá fundo repetia, num fio de voz, rouca, ao mais baixo sussurro: "É uma maratona, querida. Vence o melhor, o mais rápido." Ela não queria vencer. Só queria viver. Tinha sede, e fome. Almejava à vida, queria vivê-la. E a cada grão de areia transcorrida, tudo parecia insignificante. Tudo rodava, e ela ali, intacta, atordoada, sem rumo, perdida, sem fala, sem saber o que fazer, sem ninguém, de olhos fechados. Foi quando abriu os olhos, e fitou a escuridão do quarto, iluminado por um fio de sol frio, com um olhar de sono. O relógio marcava sete em ponto. E a maratona?! E a estrada sem rumo?! E o relógio ao contrário?! E as pessoas?! Ela não se lembrava de nada, só sabia que estava atrasada, precisava chegar logo, o chefe a esperava, a promoção a aguardava, a vida a aguardava?!  Mal ela sabia que a vida era uma maratona. A maratona era dentro dela mesma. Ela estava perdida. Sem saber que caminho tomar, e para onde ela seria levada dentre os caminhos que andava tomando. Não. A vida não a aguardava. A areia escorria sem piedade, ou pressa para retroceder. As pessoas não se importavam para o caminho que tomava, o que somente as interessavam era a direção que precisavam caminhar. O relógio da vida está retrocedendo, voltando, e ninguém está interessado em fazer valer a pena, os últimos grãos de areia. O sol está se pondo, e lá se vai a vida. A vida está sendo muito, ou talvez pouco, pelo tanto de promessas, e contadíssimo tempo. Os sonhos estão ficando no papel, e os papéis do balanço da empresa estão sendo despachados o mais rápido possível, pois estamos em fim de mês. Os sorrisos estão reprimidos no peito, enquanto o cachorro clama por um carinho. As viagens foram adiadas. As músicas acabaram. Os amigos se esqueceram. O medo venceu. As lágrimas molharam o chão. Ela tropeçou. Se machucou. A vida não valeu. O sol se pôs. E lá vem ela, com as mãos abarrotadas. Mal sabe ela que a vida acaba daqui a um segundo, e tudo que levara da vida, é nada. Mal ela sabe que não é uma maratona. Ela que faz parecer ser uma maratona. E quem vence, não é ninguém. Somente ganha aquele que menos pensa em ganhar. Somente ganha aquele que menos espera. É aquele que faz da escuridão um amontoado de estrelas, e ilumina o caminho com um feixe luz, mas que enxerga tudo. Quem ganha, é aquele que tem ânsia de viver, que vive sem sonhar com o depois. Mas sobretudo, aquele que vive a sonhar.

3 comentários:

  1. Engraçado como seu post me fez lembrar de um clip musical que vi há muito tempo. E, sim, tudo o que disse é a mais pura realidade. Pena que não batalhamos para fazer o último grão de areia valer a pena. Nos preocupamos tanto em ser melhor, em agradar os outros, que nos esquecemos de agradar a nós mesmos. Belo post.

    *Obrigada pelo comentário lá no blog! Volte sempre, viu? (:

    beeijo

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    1. Ah, sim, é verdade. Na realidade, o post foi uma lição de moral pra mim sabe?! Obrigada por ler linda. Obrigada por gostar. Volto sempre sim. Beijos.sz

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